Capítulo 1


Ondas vermelho-seiva abortaram-no contra os pedregulhos afiados e areia áspera da praia monocromática. Uma massa convulsionante em forma de homem estirou-se de bruços sobre os cotovelos enquanto arfava como um semi-afogado. Couro gasto, duro e molhado invadiu o seu apertado campo de visão.


- Não precisa se esforçar tanto garoto. Os mortos não respiram.


O ranger, causado por inúmeras botas esmagando a areia cinzenta, o incomodava levemente menos do que a cacofonia aquatica a que tinha sido submetido por um tempo que sequer poderia definir. Braços cheirando a óleo queimado e grossos como árvores velhas o suportaram por ambos os lados do tronco.


-Ei Gildore, vá na frente e avise que temos um "vivo" hoje. Disse em tom de casualidade habitual aquele que parecia comandar aos demais.


-Duas maçãs da safra passada que ele não passa de hoje. Apostou a voz retumbante da árvore da direita.


- Feito. Farfalhou a árvore da esquerda.


Uma curta caminhada arrastou-o até aquilo cuja, melhor descrição seria, as ruínas de uma escada de madeira que levavam para fora da praia. Seus suportes elevaram-no sem dificuldade, mas não sem grunhidos compartilhados entre si, pelos degraus acima.


- Vamos logo. Apressou o dono da bota de couro gasto. - A maré está subindo e não quero dar de cara com portões fechados para as passarelas. Se eu não dormir em casa hoje vocês dois irão passar o resto da semana...


O elongado grito de "Oi" do vigia no portão da passarela clamava a atenção do grupo atravessando a faixa entre a praia e os limites da cidade. Rítimica como o sino augurioso que começou a badalar, a lanterna em sua mão afrontava o nevoeiro vespertino.


O som reconfortante de chaves fechando um portão de ferro e o aconchego da luz ambâr da lanterna venceram enfim e a cabeça de longos e emaranhados cabelos pretos pendeu enquanto o sono trazia um sonho perturbado por duas árvores discutindo sobre se ele estaria morto ou dormindo.


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